Nós ainda existimos

Sobre minha inefável experiência de fim de semana: andar pelas ruas da Tijuca vestindo a camisa do America F.C.

Tarde de sábado e faz calor. Poucos se aventuram a caminhar pelas ruas da Tijuca (mais quentes que as da Zona Sul, menos que as da Zona Oeste). Perto da Mariz e Barros com a São Francisco Xavier, percebi que um senhor comentava algo a meu respeito para um jovem que estava ao seu lado

— Viu só? Ainda existem torcedores do America.

Eu estreava minha camisa do America F.C. enquanto passeava pela Grande Tijuca, onde moro. Demorei algumas quadras para perceber que ostentar o manto rubro pela região é um ato de resistência, um grito nostálgico que procura adequar o presente.

Fui saber logo que aquele senhor se chama Norberto. Ele me parou na rua. Com pressa, emendou as explicações:

— Estou mostrando ao meu filho que ainda há quem torça pelo America. Eu não sou o único.

Era isso: mais um caso de rebento que desgarra dos limites futebolísticos impostos pelo pai e acaba torcendo para outro time. O filho de Norberto talvez torça para, sei lá, Flamengo, Fluminense… mas vestia a camisa do Bayern de Munique. E, convenhamos, suponho deveras hercúlea a tarefa de Norberto: legar a veia americana para seu filho diante da situação do clube.

Desde 1911 sediado na Campos Sales, na Tijuca, o America F.C. já foi um dos grandes do país. Faturou sete títulos do campeonato carioca e  tascou o nacional Torneio dos Campeões, em 1982. Em seu currículo, impôs humilhações históricas aos grandes clubes do Rio no Maracanã. Pelo plantel do America passou Almir Pernambuquinho, Peralvo, Bráulio e Leônidas da Selva (isso mesmo, da Selva).

O ataque de 1946 – Maneco, China, César, Lima e Jorginho – ficou conhecido como tico-tico no fubá, referência à música consagrada na voz de Carmen Miranda. Isso porque os jogadores trocavam passes com delicada precisão. Era o tiki-taka guardiolano meio século antes.

Já hoje o America não chega a disputar nem a Série D do Campeonato Brasileiro. E tem sua sede histórica e tombada, na Campos Sales, a ponto de ser demolida e transformada em algo proporcionalmente inverso à nostalgia que o clube inspira – um shopping center. Passada rápida em frente à sede é observar o retrato da decadência. Infelizmente. Há tantas versões quanto lamentações a respeito de como o clube chegou a tal ponto. Má administração e mau caratismo estão incluídas nos causos. Mas não vamos alongar muito essa vereda aqui.

Quem tem uma versão própria para a derrocada do Mecão é o açougueiro que trabalha onde eu compro carne para os raros churrascos que preparo sob o céu tijucano. Quando apareci com a camisa vermelha por lá, em uma padaria da São Francisco Xavier, ele, que tira um corte da alcatra como poucos, foi logo dizendo:

— Você é torcedor do America mesmo?

— Entusiasta. Serve?

Acho que serviu. Afinal, ele foi logo contando que chegou a jogar no America nos anos 1990. “Fui dos bons, rapaz”, lembra, enquanto afia a faca. Depois de falar que seu pai que o fez torcedor do Mecão, começou a testar meu conhecimento sobre a história do time. Fui até onde sabia. Saco então que torcer para o America não é uma aventura pela qual simplesmente se passa, é uma experiência perene, uma constância de desafios fora das quatro linhas.

Problemas com dinheiro é o motivo mais citado pelo açougueiro para explicar a derrocada rubra. Enquanto ele fala, citando dinheiro em todas as frases, eu penso que no Brasil as coisas são meio assim: quando há muitos motivos para um problema, coloca-se a culpa na corrupção. Não explica a questão, mas também não deixa de dizer o que se passa – ou parte do que se passa.

— …E foi isso que fizeram com o America —  conclui ele, mestre da faca sobre a carne.

Já o vendedor da loja de artigos esportivos, na Praça Saes Peña, aorta da Tijuca, observa o copo meio cheio.

— Camisa do America aqui é a que mais sai.

— A que mais sai? — questiono eu, sem esconder o espanto.

— Sim, a que mais sai depois da camisa do Flamengo, Vasco, Botafogo e Fluminense.

Bem, ok. Ele ainda lembra que o Mecão vende mais na loja que a camisa do Madureira com as cores de Cuba circundando aquela imagem histórica e batida do Che Guevara – alusão à visita do tricolor suburbano à terra de Fidel Castro em 1963.

Há essa tendência de colocar o America como o segundo time do carioca. Ao mesmo tempo, sinto que isso incomoda alguns torcedores rubros, aqueles que acompanham as notícias do time – e para isso precisa de muito esforço, não basta só abrir o globoesporte.com. Está posta uma sutil aversão aos que apenas simpatizam: não vem tirar onda na minha casa para postar foto no facebook.

E o jornaleiro da banca perto da minha casa deixa isso bem claro quando eu pergunto:

— E o nosso America?

— O meu America. Você é America também?

Opa! Aqui não, camaleão.

Pois é, entusiasta para ele não serviu. Esse jornaleiro, no Maracanã, é um senhor mais calvo que grisalho – bem parecido com o cartunista Jaguar – que está sempre acompanhado de algum índice americano. Pode ser camisa, boné, chaveiro… algo nele diz que é torcedor do Mecão. E sempre que passo na banca nas manhãs de domingo, depois de pedir O Globo e Valor, puxo assunto sobre o America. 

O jornaleiro, escondido pelas pilhas de jornal, mostra o entusiasmo para 2016:

— Este ano vai. Acho difícil. Mas vai. Pelo menos vai jogar no Maraca.

A projeção se justifica no retorno do time para a disputa da primeira divisão do campeonato carioca. E a esperança, por racionalidade, figura na possibilidade de o America buscar a vaga na Série D do Brasileiro, o que depende de seu desempenho no certame regional.

Na última vez que passei pela banca com a camisa sangue, o jornaleiro ergueu o braço e abriu um sorriso.

Sinto que há algo naturalmente estranho em trajar a camisa do America nas ruas da Tijuca. Algo que deveria ser fundamentalmente básico, toma um viés outsider. É como um índio que, neste século 21 de gadgets e belomontes, vaga pelas ruas das cidades brasileiras – nativo, porém soa excêntrico à urbanidade. Infelizmente.

O fato, enfim, é que que passei a ser um entusiasta fanático do America F.C. (?) à espontânea, da mesma forma como a Tijuca me adotou.

E lembro o brado de Norberto ao se despedir de mim na Mariz e Barros com a São Franciso Xavier:

— É isso aí. Nós ainda existimos.