Dinâmica oceânica

Há sim muito de potência do vento e um bocado de energia do sol nas ondas do mar. Afinal, perceba, não se trata apenas de uma questão sinérgica dessa tal, desculpa, força da natureza, pedacinhos bem encaixados de elementos que, como estão postos por aí, fazem o mundo funcionar há algum tempo antes da internet sem fio. Uhum… Uma vez, outra vez, percebe-se baba peculiar a marcar a areia. Então há quem diga: opa, essa é minha praia. Vá lá, essa baba não passa de um resto de espuma que sobrou de uma derradeira onda notívaga e carente. É como aquela vontade que carece de um punhado de noção e, assim, portanto, leva o rótulo de atrevimento. Sim, observe se não é bem isso.

Como uma onda ocupou o corpo. Não era seu. Não se acostuma. Começava pelos pés, pernas, esfregava-se nas panturrilhas, uma sentada em cada uma das panturrilhas. Depois, avante, como um lençol ao estender-se sobre a cama, cobre lento o leito. Nas coxas não se demora, fica pela barriga um tempo, com beijos e mãos, lambe o umbigo, molha os pelos, confirma os cheiros, evita os olhos, conversa sobre si mesmo, para si mesmo, sobre o que deseja fazer e como vai usá-lo, o corpo, corpo petrificado que recebe as águas decididas de um tesão incomum, tesão velho. E resiliente.

Custa sair, tesão de grude, com o quadril erguido, esfrega os seios, olha para si, decide suas vontades e a espuma do mar. Agora avança rápido para o pescoço, alga gelatinosa que ocupa a boca, se esfrega no nariz.

Tomou por inteiro um corpo com seu cheiro, benzeu os pelos, batizou, o possui e, nisso, profanou e sacralizou. 

Olha, até aí tudo bem, vale–se da noção intempestiva dessas vontades e, ao que parece, isso de profanar e sacralizar é nada além do movimento de difração e refração – respectivamente. E na refração, lembra-se, está a capacidade da onda contornar obstáculos, ou melhor, se espalhar em diferentes direções. É, talvez sejam esses mesmo os movimentos, e não aquela ressaca libidinosa que se sobrepõe à civilidade, essa impoluta, e, de novo, avança com atrevimento sobre a tranquila e imunda areia ao longe, isso tudo antes das cinco. Pois é, atrevidas ondas ressecadas, mas também não menos envergonhadas – coisas assim não suportam a luz solar.

Então derretida sobre um corpo que não é seu, mas o possui. Uma mulher, sim, que maneja o outro, o outro corpo, o gira, o ocupa. Estava escuro, guiou-se. Pelo cheiro ela, o cheiro do outro, cheiro e silêncio, confuso sendo ocupado feito um prato principal, banquete, lambido como colher de brigadeiro, estranho. Estava como bem jovem, se permitindo, deixando-se navegar, sabe como é, talvez se aprenda alguma coisa. Quieto, múmia de tesão, boneca, boneco, boneca. Um corpo calmo, enviesado, para um clitóris nervoso, palpitante, decidido e egoísta. Ora mar, ora Rio, agora mar. Ela volta, lambe os pés, senta nas panturrilhas.

Agora uma sentada nas duas juntas, de apertar – um clitóris, um clipe. Volta, se arrasta pouco pelas coxas. Lambe o dedão do pé esquerdo, as panturrilhas de novo, agora um pouco mais às coxas, o umbigo, peito, pescoço, cuspe no rosto? Sim. Beijo na testa. Volta, o retorno da buceta. Ai.

Os pés, as canelas molhadas, uma sentada na coxa esquerda, na outra, mais uma e outra, o mar avança, ocupa o corpo o vence na insistência. Ao rosto de novo vai, vai, estraga o sorriso como esse fosse um castelo de areia, que agora se engasga em sugo. Vai, vai mais, e volta, mar. Sobra buceta sobre o corpo, lubrifica, corpo azeitado. Volta aos pés, canela, panturrilha. Agora sim, as coxas já não passam sede, são coxas que encaixam tão bem… se há pelos nas pernas estão empapados, que corpo possuído, usado, besuntado, quem se presta a ser salgado assim?

Ah o momento aqui insiste. Há sim, convenhamos, um odor forte de praia preguiçosa entre quatro paredes. Praia vadia, permita-se. Praia vadia. Barco velho, talvez seguro em nó de bolina. Meia dúzia de gaivotas, o lixo do ensolarado domingo anterior. E nada mais por ali. No horizonte marítimo sugere-se a silhueta de um navio graneleiro, intrometido, mas o momento é esse mesmo: marasmo…

Volta, avança, até o nariz, os pés, beijo na testa.

…e tsunami.

Uma gozada nas coxas, uma primeira gozada, de uma violência delicada, de novo, nas coxas. Espalha o gozo com as mãos. Vai, mar, volta.

Como o mar, também sabe baixar a guarda, refração, retorna de onde veio, marca a areia, a esculpe com gozo, pinta com clitóris, vai-se. Já. Lambe os pés, e não avança jamais.