As pessoas são pra-lá-de-legais na Rua do Canal – lugar onde todos se conhecem, se dão, e se tratam com a educação que bem entendem. Uma conversa rápida entre o jovem Bento e o quitandeiro Abreu explicita bem isso:
– Seu Abreu, bom dia! E essas bananas aí?
– Vai pro inferno, moleque do caralho.
A Rua do Canal tem pouco mais de três quilômetros, é um espaço do tipo de uma viela de favela de cidade grande e uma avenida de cidade pequena – uma mão vai e a outra vem e, no final das contas, um carro tem que esperar a passagem de outro para seguir viagem. Nessas, acontecem amores inesperados – não raro proibidos –, desafios verbais, dedo na cara e conclusões sangrentas, como a que vitimou o coitado-Velho-Gilberto.
Pessoa idosa, de barba branca-cau, coitado-Velho-Gilberto não continha esmero para manter uma infraestrutura mínima no Canal, a “minha Rua”, como costumava falar. Ele chegou para morar na Rua do Canal com sete anos, quando todos o chamavam de Gil. Era Gil ali, Gil na esquina, Gil que chutou o beiço do dono-da-bola antes mesmo de a pelada começar, Gil que não queria tomar banho e fugia de casa chorando, Gil que tinha cabelo liso, Gil que usava a mesma camisa branca. Com o tempo, Gil deixou de ser jovem e virou Gilberto, um rapaz legal até os quarenta. Depois, ranzinza, foi classificado de velho-Gilberto pelo quitandeiro Abreu. E, ao gastar toda herança de sua mãe – a laje da casa de dois quartos – com diárias “duas cervejas e um dedo de uísque”, passou a ser chamado de coitado-Velho-Gilberto. Morava na rua da Rua do Canal, espaço que queria preservar.
Numa manhã de quarta-feira, antes dos ressaqueados acordarem e depois dos fanáticos começarem já a projetar o jogo de logo mais à noite, um casal estourou em discussão pesada em frente ao bar da Galera, ao lado da Quitanda do Abreu. O rapaz, jovem, antes dos trinta, deu com um carro branco reto no poste de luz – um dos dois pontos de luz para cada treze quilômetros quadrados da Rua do Canal. O fim do “sem nenhum arranhão” daquele automóvel só intensificou a briga com a namorada. Xinga-pra-cá, xinga-pra-lá, os dois acabaram em ofensas do tipo “jacupira das pernas abertas” e “dobra os joelhos, não vai passar pela porta”.
Quebra-barracos como esse estavam longe do tipo “raro” na Rua do Canal. Mas àquela hora da manhã, a acordar o coitado-Velho-Gilberto… eram incomuns.
– Coroa, encosta neste carro mais uma vez e te deixo com a cara embolotada.
coitado-Velho-Gilberto insistia. Queria tirar o carro da calçada, enconstá-lo mais adiante, deixar espaço para os pedestres, garantir o resto da manhã de sono. Mas não teve jeito. O casal, forasteiro, continuava a discussão.
– Vai-pra-igreja, velho!
– Cala boca e olha pra minha cara, amor!
– Cala a boca quem?
Funcionou. O carro branco ligou. coitado-Velho-Gilberto engatou a ré, a primeira, andou menos de vinte metros e bum! Antes que o automóvel, também velho e acabado, mas “sem nenhum arranhão”, pudesse morrer de vez, Gil fora alvejado na fuça por um tiro de bala caseira. O projétil, por alguns milésimos de segundo, silenciou a Rua do Canal.
O quitandeiro Abreu, que já havia escondido as bananas e maçãs defeituosas na parte de baixo das caixas da vitrine, presenciou tudo de bem perto. Chegou a levar a mão à boca quando coitado-Velho-Gilberto levara o tiro. Mas, em seu distanciamento, não chegou a lamentar de fato a morte de mais um mendigo.
Enfim, após o tiro, o que todos ali testemunharam foi um beijo apaixonado do casal, um carro preto esfumaçado chegando à Rua do Canal, os dois nele entrando, partindo, para nunca mais, de carona num automóvel novo. A carcaça do carro branco continua por lá, cruz cravada em memória do coitado-Velho-Gilberto. Desde sua morte, o quitandeiro Abreu nunca mais fora o mesmo, nem um sorriso de canto de boca.
– Seu Abreu, bom dia! E essas bananas aí?