A doença se espalhara como fósforo aceso que cai em balcão inundado de cachaça. Forte e rasteira como tal, deixou vários constipados, sem forças em suas camas. Até mesmo o padre mais severo, da paróquia mais rígida e com as beatas mais conservadoras ordenou com um olho no rebanho e outro ao céu que “filhos, não se deem as mãos durante o Pai Nosso”. No interior do interior, ainda alguns ignoravam o que a ciência dizia ou pelo menos faziam valer a tradição. Até porque uma gripe com a definição de um animal que tinham ao lado do estábulo não podia afeta-los. Enganaram-se todos. A gripe suína derrubou a pequena cidade de Acatacara como o vento fazia por lá aos galhos das árvores mais antigas e, assim como quando um destes galhos caiu sobre a escola que era local de ensino para as três turmas de crianças da Acatacara, a doença suspendeu as aulas obrigando o diretor do colégio a passar de casa em casa, com recortes de jornais de grande circulação da capital em mãos dizendo que “não podemos mais continuar correndo riscos” e que “as aulas estavam suspensas até que o inverno acabe, pelo menos”. Duas crianças haviam morrido já e outras três levadas ao hospital da capital – sendo que, das falecidas, uma delas morreu a caminho, ainda antes de enfrentar a primeira quinta parte dos 500 quilômetros até a capital, ainda antes do carro de seu pai sair da estrada de chão batido e barro duro e chegar ao asfalto para então ir à velocidade de cruzeiro em busca da salvação da criança. E quando as notícias que chegavam pela televisão não eram nada animadoras, o desespero daquela população pequena e velha foi não poder correr todos à igreja da praça. Diferente das calamidades que Acatacara havia conhecido, com esta última a aglomeração em local público não era sugerida. Era sim proibida pelo padre que, ao batizar o filho da última grávida que ainda havia ficado na cidade – mais por não ter para onde ir do que por qualquer outra coisa – usou luvas cirúrgicas que deixaram um cheiro forte de borracha no balde de água benta que o padre carregava. Após o batismo, o pai do bebê afirmara olhando nos olhos do sacerdote que “tudo iria passar e as pessoas iriam voltar” e também que “logo todos voltariam a ir às ruas, saindo de suas casas”. Antes de deixar a casa, o pai ainda ofereceu ao padre: “Quer levar algumas laranjas?” Das árvores, não restara nenhuma destas frutas e até mesmo as lolitas delas, que nem mesmo haviam crescido o suficiente para tomar luz do sol direto sobre suas cascas pois permaneciam cobertas pelas folhas, foram arrancadas no desespero em busca de vitamina C. O mesmo acontecera com o limoeiro, causando tristeza nas crianças que se arriscavam a rua, afinal o divertimento delas era passar tardes acertando o limão no longe. A mais fraca, que acertasse o perto, pagava a prenda durante meses – sendo chamada de porca.