Antes, durante e logo depois do casamento: conheça a história de Juliana, filha de Antonio Bento.
Alegre lhe parecia a mãe, a sua, Senhora Rosa, que até consentir o eterno sim negou mãos cheias de presunçosos pedidos de casamento sempre acompanhados de adornadas promessas de amor e dengo, sob a sombra de alguma árvore escondida na caatinga de Bodocó. Posta assim a lenda, era natural que a filha, Juliana, ao casar, fosse remetida a ser o espelho de Senhora Rosa. Para tanto, não só do mesmo vestido – branco gelado e tafetá de tapar tudo – fez uso: durante todo o dia da cerimônia buscou pensar como a mãe, ter os mesmos tiques, ser feliz como a tal. Agir ao natural. Foi assim da aurora, quando despertou aos nervos mesmo antes do aroma do café chegar ao seu quarto, até o encaixar dos sapatos, que por tradição na cidade costumavam ser de cor escura. Coisa que a própria Senhora Rosa já lhe explicara bem:
— É para a poeira não assentar no calçado, Juliana.
De agosto a dezembro, sem exceções, era o período de casamentos em Bodocó e nas curtas redondezas. Dizem que isso se dá para que a festa não encontre as violentas chuvas do meio do ano – ainda que elas costumem vir também, e sem precisão de avisos, em agosto, setembro, outubro, novembro e, com intensidade maior, em dezembro. O que passa na cidade é que o padre de verdade, aquele com habilitação e formação presbiterial plena para unir homem e mulher, só aparece na região no fim do ano. E é aí o aproveito: os pretendentes alegam que “se não for agora só sei lá quando” e, com pressa de outros motivos, os pais que tiveram filhas violadas-por-consentimento levam a mão ao coldre e arrastam voz ao buliçoso “vai se casar com ela agora, porque depois só no ano que vem”.
Nem por pressa com juras de amor, nem por coito antes da hora. Juliana estava a ser levada ao altar por inércia. E por afeição culinária em especial – jovens como ela gostam de chocolate, Juliana saboreava macaxeira. Ao purê ou ao bolinho, à torta de, ou apenas salpicada e apimentada, ou mesmo frita, não sobravam receitas com macaxeira para a vontade da filha da Senhora Rosa. Nessa toada culinária, foi natural que as visitas de José, o produtor, vendedor e entregador de macaxeiras, chegassem a flerte, a namoro. Assim foi que logo as melhores colheitas de mandioca do semiárido pernambucano aportavam antes à casa onde morava Juliana, com porções generosas e a preços estranhamente módicos – isso quando não havia preço algum.
De início desentendido, o pai, o coronel, um tanto abarbarado e bastante respeitado, Antonio Bento, agradecia o serviço do produtor-entregador e exclamava feliz ao fechar a porta:
— É o cão por dentro do mato esse Zé Macaxeira.
Ô, e como se nada quisera dizer, porque à época nada queria mesmo, o coronel acabou relaxando com sua filha. Juliana, sertão gigante distante da beleza de sua mãe, topou casar, já era mais que tempo, e foi logo respondendo antes da pergunta. Já Zé Macaxeira, ao informar Tonho Bento, recebeu como resposta um sinal de “meio afirmativo, meio positivo sem querer”, conforme narrou aos amigos na praça. “Um certinho, enfim”, concluiu. O coronel foi topar com o casório quando se viu na obrigação de dar prumo à festa, que na pretensão deveria virar a cidade. Como primeira providência, reservou a última data e avisou: o derradeiro casamento do ano, em fins de dezembro.
Pois em Bodocó é assim, explicavam-se aos forasteiros, “decidimos as coisas na última das pressas”. O clima mesmo exigia isso: ventava pela manhã, à tarde o sol fazia da cidade uma chaleira vazia ao fogo e, à noite, seguia o inferno, mas aplacado sob as incertezas da escuridão. Apenas à praça chegara a luz artificial que não abandonava em nenhum momento da madrugada. Plantavam-se flores na cidade que, quando não colhidas em tempo, eram tomadas por sombras densas e serviam para mais nada. Quando muito, ajudavam a manter o fogo e emprestar seu fim de aroma à fumaça que aquecia a janta dos esposos ao terminar do dia. Muito por isso, ao passo que as flores inominadas deixavam sua beleza e, ainda que não mortas, pareciam sem vida, eram classificadas como vítimas de uma peste. Delas se dizia: “Encarvoo”.
E depois de alisar o vestido de tafetá com o bafo da chaleira aquecida com ajuda das flores encarvoadas, Juliana tomava com suas mãos as curvas de seu corpo. Sentia-se. Sentia-se passada. Sentia-se mulher enquanto recordava imagens de sua mãe, das vezes em que a viu nua, dos seus cabelos lisos que ziguezagueavam às costas. Comparava-se. Como eram mesmo as histórias? A ainda senhorita Rosa fora ponto turístico, sua rua, um mirante regional: passantes de toda Araripina a procuravam apenas para enxergá-la. “É bela mesmo como dizem.” Ou outro dos casos que ouviu de seu pai, aquele que contava: sua mãe evitava espelhos pois não se ajeitava, não era vaidosa. Mas como? E é. À Juliana, o vestido servia como um alento, seu último canto materno. Cobriu-se de branco, que lhe esfriara a barriga. Não suspirava mais. No que pôs a coroa de flores sobre sua densa e desnivelada madeixa, no movimento solitário de jogar o véu sobre suas costas, como sua mãe fazia com o cabelo.
Antes de sair ao jardim, o pequeno pedaço confortável das exageradas terras de Antonio Bento, Juliana voltou seus olhos pela última vez ao espelho do quarto e, de novo, observou o pequeno retrato cinco por oito centímetros de sua mãe em sua mão. Enfim, guardou a imagem no bornal branco que acompanhava o vestido. Sentiu o odor de grama quente aproximar-se, olhou para o céu. Chegou a estender a mão para verificar se as nuvens e sombras que marchavam em direção à igreja, a acompanhar os convidados, eram de chuva mesmo. Noiva como ela, ainda fez um último pedido aos céus, que se fosse para chover, que viesse sem água.
— Chuva sem água, é? De onde isso? — abrandou Antonio Bento. Logo convocou:
— Venha para ser retratada.
Juliana resignou-se. Antes ainda de subir no mochinho branco, de criança, para atingir altura de noiva, bateu o calçado marrom conhaque ao chão e fez valer sua preferência para o palco da fotografia. Era esperança, era o fim: onde Senhora Rosa fora sepultada, não distante da margem do riacho que restara nas terras do coronel. Acreditava: como que a beleza endireita e jamais deixa, mesmo que de uma forma ou doutra, pousou em frente às flores nascidas por um espontâneo. E no que o retratista preparava o derradeiro “Vamos lá”, Juliana ainda respirou o ar da grama profundo e tomou coragem – via uma vez mais a imagem de sua mãe, o porta-retrato, o mesmo vestido, os mesmos traços, a mesma diferença nos olhos, o reforço que exigia seu cabelo sobre as bochechas assimétricas que a Zé Macaxeira serviam como tela para os dedos.
— Vamos e logo. Antes que as nuvens deixem sem o que resta de luz.
O que era que quase virara a cidade, mesmo, ninguém passou para a ponta do lápis. Não se percebeu. Foi, como chegou até a coluna social da capital, a festa de casamento mais resenhada de toda Araripina. Quem não iria, obrigou-se. Diferente fez a chuva, que armada para desarmar cabelos, vestidos e adornos, espantou-se com o que se passava na praça de Bodocó. Relataram um clarão no céu, estourando nuvens, e da tempestade ficou só o cheiro de promessa. Era a alegria: há muito não tomava pouso pela cidade. Alegria assim que, aos mais velhos, não era estranha. Saciado e sentado na cadeira da noiva, Coroné Antonio Bento comentou alto, com seu vozeirão, para não ser ouvido, para ser abafado pelo som do piano do importado Bené Nunes:
— É Juliana, que foi e encarvoo. E voltou sua mãe.