Oito

Será que alguém ainda vem nos buscar? Nesse pedaço de fim de desastre, não sei, talvez espero o calor passar, alguém chegar, o sono vir, um vivente ressuscitar. Seu rabo abana, empina, empolga, mas não posso lhe acompanhar, nem seus latidos consigo mais ouvir. Sei que se movimenta, a percussão de suas patas nesse piso eu conheço, há muito escuto, ou escutei. Para além disso, não recordo nem mesmo de sua cor, enxergo-lhe branco, daqueles encardidos, de mechas acobreadas, orelhas sempre em pé, enquanto caminha em círculos ao meu redor, no envolta da cadeira de balanço. Falta olfato também. Que condição estou. Nem assombração há mais por aqui. Permiti que me deixassem, implorei que fossem, restei o último de uma Oicó de silêncio e medo. Você sente falta de buscar o jornal à porta para mim? Quando não o lia, por achar que fazia bem em ignorar as notícias, e de fato era o melhor, me servia de sua melada baba como desculpa, manchetes ensopadas.

Aos 8, dei meu primeiro tiro. Não muito longe daqui. Gosto de lembrar: era uma espingarda de pederneira de um vizinho. Isso não foi muito longe daqui. Esta espingarda que tenho agora, e que nos faz companhia, é diferente, modernuda, de repetição. Percebe? Mas na minha condição não me adianta traquitana ou zerinho, mal posso descarregar o chumbo. Tempos atrás, até mesmo o governador, em pessoa, me deu os cumprimentos pela forma como manuseava uma arma de fogo. Tinha olho de lince, comentavam por aí. Acertava de distante. Quando o governador veio falar, me apresentei com a mão limpa: Liudi Pacheco, ofício de contador, assessor no momento. Era época que prestei serviços à prefeitura. Era tempo em que eu ia em mulheres todos os dias, e atirava também, pois secretário de execuções. Contava vantagem nos dias em que mais atirava que esporreava.

Há pouco escutei a cadeira de balanço rangeu, falou alguma coisa. Deu força na minha perna, peguei impulso, quero ver se durmo. Cadeira de balanço é uma invenção gostosa de se pensar sobre, ô coisa. Essa espingarda aqui também é bem inventada. E faz o contrabalanço comigo aqui, sentado. Sinto que as manchas começam a me comer a virilha também, a da esquerda. Desta aqui, da direita, a vermelhuda que arrancou meus dedos a fora já passou da bacia, chegou na barriga, no vazio. E eu, que não sinto mais cheiro, cor, sabor e amor, sofro de dor com essa praga de doença. Quando me falaram, entendi que a mancha come a todos rápido como cochonilha nas bromélias da beira da estrada. Mas em mim parece que essa doença cansou. Avança um pouco, recolhe-se um tanto, avança mais, recua, e assim ora me retira e ora me devolve o que ainda me mantém ativo – a desesperança.

 Às vezes paro e tento saber quem ainda sou, que é o que fui. E me ponho a exercitar, para não esquecer, como caminhava por aí com o sorriso largo, de longe se sabia da minha felicidade. Gente de bem conversava comigo, os de maldades me ignoravam. Ou pelo menos faziam de conta, porque não dá para ignorar o que se tem medo, não é? O medo é uma atenção nata. E os que tiveram medo, e vieram conversar, passaram a gostar. Fui um homem bom. Pena a gente se conhecer só depois que peguei velhice, já neste fim. Como acho que está a latir, penso que concorda. Quando a dor me esquece, lembro que alguém pode vir aqui e me levar. Dá dó deixar a cidade sozinha, sem sequer um boi, os cavalos arredios quando ventava. Será que escuto o coaxar dos cururus? Faz tempo. Mirava neles quando criança.

Nasci em Oicó quando a cidade era assim, assim como é agora. No que tinha mais gente. Como não era forasteiro, as pessoas me respeitavam mais. Eu já saía em vantagem nas conversas. Minha mãe durou tempo suficiente para me ensinar a ser homem. Morreu velha, carregando cruzes no pescoço, como se isso fosse lhe evitar a passagem para outra vida. Ela me colocou para trabalhar desde pequeno, queria fortificar a noção de macho, sem ócio. Eu corria pelas ruas só de bermuda, levava leite em garrafas que eram metade do meu tamanho. Acontecia de beber um pouco para não derramar no caminho. Se descobrissem, o derramar, dava conversa braba por detrás do balcão. Quando moleque era muito do trouxa, depois aprendi que não precisava sair obedecendo de qualquer jeito, e que, se eu estava com a razão, cabia resposta na cara. Minha mãe me aceitou. Já meu pai foi meu pai até quando eu fiz dois anos e, por aí, oito meses. Quase três anos, se vai. Conta a velha que ele foi parar no centro, não voltou, pode ser que volte, mas agora não deve nem de estar mais vivo.

Penso que pode ter dado de eu ser o último de Oicó a pegar esses germes de mancha. E olha que muita gente daqui, que já está por baixo de sete palmos, encomendou minha morte à virgem santa, ao padre, ao capeta – pois isso era serviço dele mesmo – e a outros jagunços. Estes não queriam pegar a faina. E consta na história da cidade: Deus me protegeu. Mas quando me veio à cuca, ainda quando ligava os pontos de orelha a orelha, que poderia morrer, embatumar podre como os outros, de praga rubra, esperava que a morte viesse com pressa. Chega avante como veloz manga larga. Mas não é que não é? Nem sempre o trem vai nos conformes da comodidade. E como não sei mais do tempo, dos relógios, do sino da igreja, rimo algum tique-taque na cadeira de balanço, que bate frente, bate trás, bate frente, bate trás, bate frente.

Quando chega a noite, como agora, que vem de mansinha, sei disso porque tem zumbido desses bicudos invisíveis. Acho que mais sinto o zumbir do que o escuto, assim como sinto fedor de encardido, roupa velha e molhada, mas acho que não é do que visto, nem do tapete surrado vermelho sangue da sala. Cheiro estranho mesmo, e acho que é de tua pelagem, cão encardido. Ou da minha babada barba. E do chulé? Acho que esse não me pega mais, a peste rubra devorou minha pele na planta dos pés. Minha perna direita, toco-a e sinto feridas. Logo esta. É, seu jaguará, eu fazia gol de domingo de sol e de domingo de chuva com esta direita. No campo de trás do mangue. Erguia taças. Por que parei de jogar mesmo? Acho que foram ordens, eu as obedeço. Quando as vêm de cima, claro. O Estafenda, lembra, disse que não cabia a um secretário seu brincar feito criança na contenda da bola aqui da região. Meu time era dono do agreste. 

Sempre fui meio sozinho mesmo assim, cercado de gente, no meio do nada. Agora é até amigo meu, Dunada. Por isso lhe chamo, Dunada. Dá vazio na gente pensar que não há o redor. Posto que antes, quando o redor era recheado de gente, não importava o vazio dentro estar. Passei pensando um punhado de vezes de como que esta cidade minha seria. Quando eu rumava de controlar as ruas, estradas, comércio, de beber, de plantar. Agora Oicó é sua, Dunada. E minha, e dessa praga que devora pele de gentes. Teve tempo que o vento da cidade, no espraiado, dava volume aos meus cabelos. Deixava-os de um brilhoso que era chamariz nas festas de santo, inveja no homenzario. Tratava até das casadas, passava o saco em domingos e feriados. Sabe que a farra eu fazia em horário de missa também, as moças se diziam adoentadas. Pobres rapazes. Muitos deles agora se foram, fugiram da peste, e teve os que deixaram suas esposas em dor, pesteadas que já estavam.

Passei o saco inclusive nas pesteadas. O médico, antes de ir embora, por ser o único que era por aqui, mandava como rei. Quem ficava, obedecia, pois a farda branca dele ostentava poder. Primeiro disse que o come-come vermelho não tinha tamanho, e se resumia à alergia que vem com a água azeitada. No que nada melhorou, e nem pele se tinha mais para coçar, o homem nos mandou ficar em casa. Mandava recados por um moleque que já estava condenado, mas fazia o serviço por tratamento que acreditava. O médico passou até receita de cozinhar gel de camomila. Tudo por bilhetes. O moleque condenado deixava às portas. Eu já era um dos poucos na cidade quando o doutor se foi. Daí, Dunada, senti que aquela alergia matava. Depois ainda correu a notícia, correu devagar pois eram poucos que restavam por aqui, que o doutor era sim um enfermeiro. Mais uma passada larga do prefeito. Restaram as anotações do charlatão, os bilhetes com as orientações médicas, que tomaram o lugar das folhas secas pelas ruas em meio ao inverno.

Late assim, alto, isso. Língua quente que tem, e quando me lambe os pés, parece que esqueço de minha febre. Já não posso mais descansar o dedo no gatilho, espingarda companheira, é que me tremelico. E nisso já foi tiro ao teto. Desta arma não sai mais chumbo, pois a morte não se mata. A traiçoeira. A terçã. A definitiva. A inconstante. A irremediável. A do analgésico. Dunada, quando ergue suas fuças à lua, assim, parece lobo. E late. Como comes? Talvez ainda nos reste um pouco de leite, pois o caixeiro, desinformado, veio e fugiu correndo, largou mala na rua principal, fechou o vidro do carro, pisou fundo. E não escapou. Jogo que está sendo comido também, a peste rubra. Pois, desde então, não recebo mais chocolate.

Não se encomenda mais, nem reza em missa. O padre, chuto eu, está interno na igreja, sendo corroído também. Mas disso não há certeza. A vida aqui é um não sair. Antes, Dunada, gritávamos uns aos outros, noticiávamo-nos. No que as manchetes foram findando. Então se há mais alguém, existe-se em silêncio. 

Na condição de inválido, na de sozinho, já suspeito que falta ainda uma punha de coisa ruim para que essa bruxa peste da morte venha ter comigo. O finalmente dos finalmentes. Isso sim, pois ela não deve estar me cozinhando a fogo baixo, não é? Muito mais para forçar a visita dela, companheiro, e por ter de te ouvir latir às ganhas, pois penso que ainda late, vou te mandar bala. Não se importe, pois espero a morte – está na hora de ela dar as caras de menina medonha, serpente peçonhenta, mão sangrenta. Vamos apressar as coisas. Miro bem, no que ainda posso, entre teus olhos, para que não sofras, Dunada. Ela vem te buscar e, no aproveito, me leva junto também.

(este texto é o oitavo da série de contos intitulada Oicó, de autoria de Guilherme Póvoas)