O fim percebe

Então, que quando destrambelhado, de pé, tentando, estufou o peito sobre a cadeira esquecida no meio do salão – era mesmo um salão, com grandes vazios e pequenas pessoas, mas salão – e jogou sobre aquele punhado de gente uma sentença acerca de sua vida que muitos dos poucos que ali estavam já sabiam, o que se seguiu foram coçadas de cabeça envergonhadas e rubros silêncios, sendo que o mais empolgado levantou um copo vazio e jogou um agudo uhul definitivo ao escutar:

— Caras como eu, no fim da história, se dão mal, se fodem. Mas mesmo. Mas muito se fodem. E se não se foderam ainda não é porque a história não terminou, mas porque eles ainda não perceberam o quão fodidos estão, que é o pior jeito de se chegar ao fim da história, não sabendo.

Silêncio. E…

Uhul.

Pois é. Também destrambelhado desceu da cadeira, procurou um casal de confiança para seguir o discurso, no que recebeu atenção pois a música não agradava. E emendou logo, como se a distância dos pés no assento da cadeira no meio do salão ao canto escuro onde estava o casal não fosse mais que uma virada de página.

É que eu deixo de ser interessante já na página nove, entende? A mais persistente chega ao fim do primeiro capítulo, que é quando a protagonista curte um show na Lapa numa noite para, noutro dia, antes do almoço, pegar um trem rumo ao Sul, como se desaparecesse em um túnel escuro, sabe?

Ai, que estafa. Reencontrou-se, o casal, na música seguinte, e voltaram ao romance, pois pensaram: aquele destrambelhado era só cornitude mesmo, no início até parecia uma intervenção artística, quando subiu na cadeira tão decidido. É uma coisa que ele nem costuma fazer tanto, se decidir. Veja só. Vejam só.

Friso esse ‘caras como eu’, pois não quero tornar esse discurso um drama pessoal. Caras como eu, no fim da história, se dão mal.

Temperava-se com uma alegria estranha que aos outros tinha um gosto de vício, exagero, constância, uma melancolia que só se encontra na dobra tênue entre a próxima dose e o vazio da abstinência, entre o desencontro com suas próprias ideias e o alento de um sorriso, o conforto das incertezas, o sorriso de criança no cochicholo, o prazer das incertezas do quarto escuro. E o que se comentava era, portanto, a adicção:

Há nele um alegre vício em ser triste, não lhe abandona.

É como uma casa na serra, que encerra este mundo, e se abre como uma aldeia profunda, de descobertas perenes, constantes, e o único preço que se cobra é que, de lá, nada se pode levar – nem mesmo um frívolo estado de espírito, uma paixão, o que se leu. Entrega-se mente, corpo, coração. Retorna-se com lembranças apuradas e nada mais do que é permitido, pois não se atreveu, não é mesmo?

Bem, voltou ao casal, sua busca por segurança, ouviu o que ela disse para ela:

Lembro do orgasmo, mas não da música.

Hora de não incomodar. No que travou. A cadeira em meio ao salão lhe encarava: bora para mais um desabafo, vai lhe fazer bem, não vai? Talvez até deixe de se sentir covarde, morno, deixe de se sentir – pois ser, assim o será sempre. Monta em mim e disfarça essa falta de sem-vergonhice, meu velho. Vem, seu destrambelhado. Monta nessa sua cadeira, lhe ponho todos a observar, seu último show, a cadeira, o salão como testemunha das testemunhas do seu sopro de ousadia, sequer tire seu tênis, vem me usar, me julga. Trepa. Vem, que não tem nada de errado em você, está tal qual deveria ser, assim espera-se. Um mais que aceita bem um beijo posto para calar sua boca. Larga logo o copo ao longo da primeira mesa aí, mesa sem cadeiras, e apoia suas mãos sobre meus ombros, sobe e segue, antes que a minha dança comece.

Era então o fim de uma noite que para o destrambelhado não acabou, a noite, pois o fim da história sequer percebeu.