É tentador colocar para tocar a música que ela sugeriu.
É tentador colocar para tocar agora porque ela beija outra boca. Ela beija outra boca agora, em algum canto distante – não tão longe.
Ela beija outra boca, e talvez eu me ocupe ao escutar uma música, ler notícias, minimizar pensamentos.
É tentador escutar aquela música enquanto é noite, e ela, acompanhada da noite, beija outra boca, toca outro corpo, sorri a outros olhos.
Saúde, aquele drinque no inferno, um brinde a tudo que é outro, outra, às outras, aos outros. Às multitudes.
Um gole profundo a quem a acompanha.
Enquanto transam, o que essa música quer dizer mesmo? Toca a música, e talvez eu não me satisfaça só em escutá-la – busco o violão. Logo pego a sequência dos acordes. Pronto: toco eu mesmo a música enquanto ela beija outra boca, toca outro corpo, sorri a outros olhos, geme em outros ouvidos.
É tentador cantar a música que ela sugeriu – faço isso tudo enquanto fazem aquilo todo.
São dedos que deslizam no corpo as multitudes, como se buscassem ocupar poros aqueles que não consegui alcançar, me faltaram pernas, me sobraram dedos bobos que agora destrincham os acordes daquela música. É tentador.
Tentação, eu lhe respeito. Executo a música, me ponho de pé, bato palmas. Bravo. Saúde. Mais um gole a quem a acompanha, e é quem talvez devesse saudar minha performance daquela música, aquela que ela sugeriu. Minha própria versão dela mesmo. Essa que lhe acompanha, tentação. Você está arranjando esqueletos para o seu armário, sugere um pensamento. Mas eu minimizo. Vamos comemorar isso tudo, contrapõe um outro pensamento. Ah, outros, outras.
Outro gole aos beijos que acontecem distantes de nossas bocas outras. Agora toca a música por ela mesma.
É tentador e até mesmo as notícias já não importam tanto, velhas, não acompanham o agora. Deslizo os olhos linha por linha, o que diz ali bocas se beijam, a notícia ficou para trás – e a notícia, nesta noite, sou eu, tentação. Há motivo para ela ter sugerido essa canção?
Enquanto a escuto, em pensamentos mínimos, acontece que aquela parte odienta do meu coração se apequena também e, assim, logo, a tentação eu não só a respeito, brindo, bato palmas, como também a quero. É tentador.